As
informações em tempo real estão acabando com a nossa sanidade.
Um novo
livro traz conselhos para quem quer recuperá-la.
Os leitores estão enlouquecendo. Faça uma visita às caixas de
comentários de qualquer grande portal e você verá o quanto são raras as
demonstrações de bom senso. O caps lock parece ser a tecla da moda. Teorias da conspiração
abundam. Um acidente de carro na Grã-Bretanha ou a alta no preço dos sanduíches
no Rio de Janeiro podem ser culpa da política, da imprensa, do imperialismo
americano ou de todos eles juntos, dependendo de quem for o leitor.
Começamos a consumir informações em tempo real há algumas décadas, mas
raramente paramos para pensar se isso é saudável. Existem vantagens de largar as notícias de vez em quando e reservar tempo para leituras mais nutritivas –
reportagens mais longas, ensaios e, sobretudo, livros.
Abandonar as notícias
permanentemente não é uma opção, ao menos para a maioria de nós. Manter-se
desinformado por algumas horas pode ser um prazer, mas a desinformação por um
período prolongado logo se transforma em ignorância.
Se as notícias são necessárias, precisamos encontrar uma forma saudável
de consumi-las. O livro recém-lançado Notícias: Um manual do usuário, do
filósofo suíço Alain de Botton, traz sugestões para os leitores que querem
aproveitar o que as notícias têm de bom sem cair em suas armadilhas. Dicas do
autor nos itens a seguir.
1. Tenha um
motivo para ler
Com muita frequência, clicamos em notícias nas redes sociais ou nas
páginas de grandes portais simplesmente porque não estamos fazendo nada.
"As notícias não vêm com manual de instruções porque lê-las é teoricamente
uma das atividades mais fáceis e óbvias do mundo, como piscar os olhos e
respirar", afirma Botton. Quando ler notícias se transforma num
passatempo, porém, deixamos de pensar sobre as informações que recebemos e
aproveitamos muito pouco do que lemos. Antes de ler uma notícia, faça duas
perguntas simples para você mesmo: o que você quer saber e por quê? Essas duas
respostas tornarão sua leitura muito mais proveitosa.
2. Enfrente
seu tédio
"Caetano Veloso estaciona no Leblon" é uma informação que
absorvemos instantaneamente. "ONU acusa Coreia do
Norte de crimes contra a humanidade" exige algum esforço. As notícias mais relevantes são, na maioria
das vezes, as mais monótonas. A culpa nem sempre é do repórter. Alguns assuntos
são naturalmente mais áridos do que os outros. Cabe ao leitor perseverar. Se
você só der atenção às reportagens fáceis de ler, continuará desinformado mesmo
depois de horas dedicadas às notícias.
3. Tente
aprender algo
Se você somar todo o tempo que gasta lendo notícias ao longo de um ano,
perceberá que essa atividade toma semanas ou até meses inteiros. O que ganhamos
em troca do tempo investido? A resposta depende muito do tipo de notícia que
lemos e da maneira como encaramos essa leitura. Um mês dedicado a acessar
centenas de notícias de política diariamente para ofender candidatos nos
comentários é um mês desperdiçado. O mesmo tempo pode ser muito bem aproveitado
se lermos reportagens mais aprofundadas sobre os problemas e conquistas do
país, entendermos o ponto de vista de cada candidato e nos tornarmos eleitores
(e cidadãos) melhores. Depois de ler uma notícia, pergunte-se se aprendeu algo
com ela. Se a resposta for "não" na maioria das vezes, é um sinal de
que você está lendo as notícias erradas ou dando pouca atenção a elas.
Por: Danilo Venticinque
Jornalista editor de livros e colunista da Revista
Época. Nasceu em
São Paulo, formado em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo
(2010) e faz MBA em Marketing Digital na ESPM. Atuou como freelancer na
revista eletrônica Consultor Jurídico (SP) em 2008. Entrou como estagiário da
revista Época (SP), em 2009. Antes de assumir o cargo de editor de livros, na
seção de Ideias, foi repórter de cultura por dois anos com o editor Luís
Antônio Giron.
Alain de Botton Escritor e
pensador peculiar. Nasceu na Suiça, é de origem judia, mas foi educado na
Inglaterra, a partir dos oito anos. As suas recordações das escolas Harrow e
Cambridge não são famosas. Cedo se deu conta de que o que lhe ensinavam não
servia para a vida que desejava ter. Por isso, resolveu escrever obras onde
traça novos caminhos para a felicidade e para a realização pessoal, em moldes
pouco comuns. Livros que já publicou – “Como Proust pode salvar-lhe a vida”, “A
Consolação da Filosofia”, “A Arte de Viajar”, entre outros – poderão ser
catalogados como “manuais de autoajuda”, mas Botton prefere chamar-lhes
“Guias”, uma vez que neles não enuncia fórmulas infalíveis nem promete a
felicidade eterna. Interessa-lhe, sobretudo, a ideia de “sabedoria”, um
conceito muito antigo e quase tabu na nossa sociedade que, como sabemos, se afastou
claramente do pensamento crítico e da reflexão. Usando, como base, o método dos
filósofos da Grécia Antiga, este autor propõe-nos, de uma forma inteligente e
acessível, uma contínua especulação sobre tudo o que nos rodeia, o que sentimos
e a forma como agimos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário